Sobre a primavera

“Ao acordar, naquele dia preliminar da Primavera, senti imediatamente que alguma coisa tinha acontecido de muito fundamental na ordem do mundo. Eu, homem de despertar difícil, pulei da cama tão bem-disposto e leve que, por um momento, assustei-me com a sensação indizível que sentia. Ao pegar o copo habitual para a minha água matutina, notei que se achava cheio de uma substância volátil, penetrada de uma linda cor violeta. E não sei por que bebi do copo vazio, estranguladamente, o ar da Primavera, de gosto azul e fragrância fria, com um peso específico de sonho.
Durante alguns minutos nada me aconteceu. Tomei meu café, fumei um cigarro e dei uma olhada nas coisas. Mas de repente senti que em mim a matéria começava a se transformar. Palpitações violentas confrangeram-me o coração e eu mal conseguia respirar.
(…)
Tudo isso constituía um fenômeno muito curioso. Os cheiros mais estranhos, os mais perversos, os mais doces, os do amor, os da solidão, perseguiam-me como outros tantos espíritos da Primavera. Um cheiro dolorosíssimo de morte chegou-me ao mesmo tempo que um odor de nascimento. Soube que alguém morria e nascia naquele instante particular do mundo e senti o cheiro da minha vaidade de me saber dono de um tão grande privilégio.
(…)
E depois senti um cheiro sobrenatural, um gigantesco cheiro de sobrenatural, um cheiro de éter, um cheiro de cristal transparente em vibração, um cheiro de luz antiga, ainda fria dos eternos espaços por onde passara em seu caminho para a Terra. A Primavera cheirava toda para mim, só para mim, desnudada, a dançar na manhã azul perfeita, embriagante, toda olhos claros e sorrisos, a abrir com beijos de brisa a boca infantil das corolas nascituras. E dentro da Primavera senti um cheiro mágico de Paz.”

Do poetinha Vinicius de Moraes

Que país é esse?

“Nas favelas, no Senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação
Que país é esse?”

Essa foi a música da vinda pro trabalho, hoje de manhã. Ouvindo e cantando aleatoriamente com o Renato Russo, fiquei muito puta ao me dar conta de que ele escreveu isso nos anos 1980. Ou seja, fazem 30 anos, ou quase, ou um pouco mais – e o que mudou?

A politicagem continua a mesma, os caciques dessa indiada que chamamos de Congresso continuam os mesmos (ok, alguns morreram, mas deixaram herdeiros que seguem na mesma linha) e nós continuamos os mesmos, desacreditando nesse sistema mas sem movimentação para fazer mudar.

Acho que o Renato Russo (ele é a minha vítima da vez) choraria no cantinho se acompanhasse a política hoje: o mesmo Collor que marreteou Lula e Sarney abraçado aos dois em foto recente. É piada, né?  Ok, as pessoas mudam, crescem, evoluem – ou são seus interesses que mudam?

O futuro da nação chegou, estamos vivendo o Brasil do futuro e não vejo a alegria ufanista prometida pelo “eu te amo meu Brasil, eu te amo” nos anos 1970. Vejo pessoas trabalhando mais para ter mais e, para ter mais, pagando mais impostos que vão parar em qualquer lugar (cuecas, bolsos, maletas, caixas 2) menos onde deveriam: na saúde, na educação e na formação de uma população melhor. Só isso.

E hoje é 7 de Setembro, dia da nossa Indepedência.

Vamos comemorar? :/

Crédito das imagens: http://renatoerachato.tumblr.com

Olhando pra trás!

Depois dos 30 a gente começa a pensar mais sobre o passado. Deve ser um desejo de resgatar as lembranças que já começam a se apagar. É engraçado que aquelas lembranças dos 15 anos, que antes pareciam tão vivas, se perdem no tempo (deve ser o álcool… hehehe!).  Mas as da infância, não!

Lembro dos detalhes do dia em que coloquei o dedo na gaiola das araras da maternal (que naquele tempo era escolinha, creche mesmo!), apesar das regras dadas pela tia Simone de não fazer isso, e uma delas morder meu dedo. Ou do dia em que tentei aprender a plantar bananeira e destruí (foi essa a visão que eu tive!) meu nariz na forração.

Das coisas legais – ou nem tanto – mais recentes – também nem tanto – lembro das noites em que enchia a cara com a Jamile no aquece e mentia pro segurança que tínhamos vindo de Porto Alegre só pra conseguir entrar no Under lotado (mesmo sabendo que ele sabia que éramos da cidade), da primeira aula noturna na faculdade, momento em que conheci a Camila Saccomori (com quem tenho contato até hoje) no “bar do Direito” da Unisinos, das batidas de carro que eu não tive (apesar de o meu carro ter sido batido mais de uma vez), de alguns livros e CDs que emprestei e não conquistei de volta, de todos os planejamentos – financeiros, de organização, alimentares – que fiz e não deram certo…

Este “olhar pra trás” e rever momentos importantes faz parte do processo de “crescimento” que todos vivem. Afinal, não é porque, aqui no Sul, chamamos a todos de guri e guria desde que fizemos 10 anos até a idade atual (não envelhecemos, então!), que o tempo não passe e a gente não evolua…