Qual é a relação entre Festa da Nata, pré-conceitos e cultura?

Hoje quero falar um pouco de conceitos que sempre defendi. Para isso, vou usar essa tirinha do Armandinho:

Será que só eu penso assim?
Será que só eu penso assim?

 

Quando eu tinha 15 anos, talvez um ou dois a mais, não lembro direito (gente, isso faz 20 anos, então não me cobrem muito! hehehe!), havia aqui em Novo Hamburgo um evento chamado Festa da Nata. Eu, que sempre fui uma pessoa legal mas sem muitas relações com a alta sociedade hamburguense (quem me conhece consegue me ouvir falando essa expressão que destaquei em itálico) brincava exatamente com a teoria do Armandinho: que a nata é a parte do leite que a gente tira e joga fora.

Não é exatamente um conceito contra as pessoas – porque muitas das pessoas que iam nessa festa eram legais, inclusive grandes amigas costumavam ir – mas sim contra essa necessidade de elitizar. Essa necessidade de “ser mais” sempre me incomodou. Incomoda até hoje.

 

Pré-conceitos

Não sou santa, vivo de zoeira e acredito que a zoeira não tem limites. Mas também entendo que as pessoas são diferentes, que cada um gosta do que quer e que ninguém é mais do que ninguém por gostar de algo. O conceito de cultura é subjetivo, não existe algo bom ou ruim culturalmente. Existe gosto.

Funk é cultura? Sim, funk é uma produção cultural reflexo de um contexto, um núcleo social. Ah, tá, mas e o funk ostentação? Também é! Em uma sociedade onde o consumo faz parte da satisfação dos desejos, relacionar a produção cultural a vontade de consumir algo e reconhecer e reafirmar a importância do ter dentro da sociedade. Quer algo mais relacionado a cultura do que isso?

Eu gostar de funk ou não é algo que não interfere em sua importância cultural. Posso até resmungar, reclamar e criticar pessoas que gostam, mas isso não permite simplesmente fingir que não existe. Porque faz parte da nossa cultura. Assim como o fato de eu não gostar de carnaval não faz com que ele deixe de acontecer e movimentar milhões de pessoas (e de dólares/reais). Posso criticar, dizer que as músicas são ruins, mas isso será um juízo de valor meu – e estritamente meu – e que não invalida nada do que eu disse antes.

 

Por que chegamos aqui?

E depois dessa volta toda pelo funk, onde eu quero chegar? Quero voltar à elite, ao conceito de elite. Quando falamos em elite, levamos em conta o dinheiro ou o conhecimento? Ser da elite é ser rico, é ter conhecimento ou é as duas coisas?

Porque o julgamento da “nata” é meu. Eu não acho legal. Eu não curto participar de um grupo que se acha melhor do que os outros. Mas acho que, assim como um grupo gosta de funk e outro de sertanejo universitário e se segmenta por isso, que todos têm direito a fazer o mesmo. Algo tipo a frase que até hoje eu achava que era do Voltaire, mas que agora não é mais (entenda aqui):

 

“Posso não concordar com o que você diz,

mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo.”

 

Talvez seja por isso que, apesar de não concordar com, por exemplo, o estilo de música da Valesca – e achar que crianças não devem reproduzir essas coreografias e tals – isso não me impede de entender que ela represente, sim, parte da cultura. Não vou generalizar, dizer que ela representa A cultura do País, porque nosso Brasil continental não conta com somente um estilo musical que seja a “cara” da nossa cultura. São vários. Cada um com sua regionalização, com suas características. Mas todos representando a mesma coisa: a voz de um grupo social. Até a “nata” tem o seu. Talvez eu não o conheça. Ou talvez ele seja o funk.

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Autor: Poli Lopes

Jornalista diplomada, passei por agência de marketing digital, jornal, rádio, revista e assessoria de imprensa, sempre escrevendo. Doutoranda e Mestre em Processos e Manifestações Culturais, também sou professora no MBA em Marketing Digital no Iergs (Uniasselvi). Sou apaixonada pelo que faço e também pelo meu marido e pelo meu cachorro.

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