Antes de tudo, é preciso paixão

O Rafa postou este vídeo. Vi há pouco e preciso falar já dessa ideia linda.

Sou filha de professora, neta de professor – e sou, além de editora de conteúdo, professora. Encontro minhas ex-professoras com uma certa frequência, até porque muitas delas são amigas da minha mãe. Tenho trocentas primas professoras, também.

Sempre entendi a docência como um dom, porque tem que amar muito uma profissão pra aguentar aquela gurizada pentelhando em uma sala de aula. Ter que implorar atenção, competir com a zoeira e a diversão ou com os brinquedos e os namoricos do pátio, cobrar atividades massantes relacionadas a conteúdos que até o professor pode achar chato mas que sabe que precisa ensinar.

Mas daí vejo isso:

Não há como evitar  a emoção! (ok, quase chorei aqui!)

Porque mais do que ser professora (ou seja, mais do que cumprir aquilo para que foi contratada), a personagem do vídeo foi bem além. Ela conseguiu unir a profissão à grande paixão da sua vida e, com isso, mudar a vida de pessoas. Imagino o orgulho que um professor sente quando vê seus pequenos tendo resultados positivos na vida. Conquistando coisas, subindo degraus…

Claro que tem o outro lado. Nem todos se dão bem. Alguns se dão muito mal. Mas não vejo, aí, necessidade de culpa. Não há como “salvar” a todos. Até porque não depende só de quem ensina (professor). Depende de quem educa (a família) e, principalmente, de quem aprende (a pessoa, o aluno).

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Mas acredito que, como em todos os momentos da vida, o importante é tentar. É lutar. E, sempre que possível, perseverar.

(aproveitando: parabéns a Prefeitura de Porto Alegre e Perestroika pelo projeto Usina)

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Quando morre o irmão de alguém…

Estou aqui pra falar de sentimento.
Não quero falar de política, hipocrisia ou coisas assim.
Por favor, entendam.


 

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Quando morre o irmão de alguém, eu sempre lembro da morte do meu irmão. Lembro de como aconteceu, da tristeza e da impotência dos meus pais, do choro da minha avó, da dor da minha cunhada, do não-entendimento das crianças envolvidas, da velocidade com que as pessoas queridas lotaram dois apartamentos (o meu e da minha mãe e o do meu pai, que já eram separados).

Também lembro do sentimento de torpor que vivi por 24 horas – longas 24 horas -, dos remédios que não tomei para aceitar o inaceitável, de como me comportei, das pessoas que estiveram ao meu lado, que me socorreram num momento de desespero.
Vivi – e vivo – vendo o sentimento de perda dos meus pais e sei que é uma dor que não passa. Não falamos sobre isso, mas é algo que sempre está ali. Como não sou mãe, entendo que não posso falar por eles.

Mas posso falar como filha, como irmã.

Nestes 21 anos – ou 20, pois sempre me perco na conta, assim como até hoje não sei certo o dia em que ele morreu (cérebro, seu lindo, que bloqueia determinadas coisas), vi vários irmãos morrerem. Sei que mais do que irmãos, eles são filhos, são netos, são amigos; mas como disse, sendo irmã me permito falar somente como tal.

Lembro que quando o Tiago morreu, em um acidente, eu só conseguia pensar na Marceli, a irmã pequena dele. Porque olhava pra ela e me via ali, tentando entender o que viria depois.

Quando o irmão da Carol morreu, em um assalto, eu estava longe. E ela era minha amiga. E quando eu falei com ela e soube por ela do que tinha acontecido, não sabia o que dizer. E foi exatamente isso que eu disse. Porque não havia o que dizer. E eu sabia disso. Porque quando aconteceu comigo, independente do que as pessoas dissessem, nada faria diferença. Ele não voltaria.

E agora, de novo, eu vejo uma irmã chorando porque o irmão se foi. E, como o irmão da Carol, de uma forma horrível, de uma forma que não deveria acontecer. Dizendo isso, não quero dizer que há uma forma certa de morrer. Mas certamente existem formas mais erradas.

E quando eu vejo isso, eu sinto. Muito. Pelas pessoas que ficam. Pelo que virá depois. Mas, ao mesmo tempo, sei que a dor passa. A indignação fica, com certeza. Pelos momentos não vividos, pela maldade que a morte representa.

Essa dor não é um assunto que eu goste de falar, na verdade é bem o contrário. É ruim lembrar. Mas é uma lembrança que sempre volta quando os irmãos choram. Porque eu já chorei.

 

Entre trilhos…

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Estar sozinho é diferente de estar solitário. Estar sozinho permite que a gente olhe para dentro, para os lados, para fora. É o momento em que enxergamos o outro, os outros ao redor. E, com essa visão aberta, ampliada, conseguimos conhecer melhor a nós mesmos.

Em pensamento, analisamos o bonito e o feio, o bom e o mau, o que nos agrada ou não. E, vendo o outro, conseguimos analisar a nossa postura, a forma como vemos o mundo.

Da mesma forma, estar sozinho com um livro na mão não é estar solitário. Aquelas palavras do outro têm sempre um significado; representam, retratam algo de nós mesmos.

Ter este tempo só, mas não solitário, é essencial para a nossa essência. Faz bem buscar, dentro de si e a partir dos outros – mas sem saber o que os outros pensam – um pouco dessa forma de ser que aos poucos deixamos para trás.

 

(escrito em bloquinho, dentro do trem, em 2 de junho de 2012)