Quando morre o irmão de alguém…

Estou aqui pra falar de sentimento.
Não quero falar de política, hipocrisia ou coisas assim.
Por favor, entendam.


 

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Quando morre o irmão de alguém, eu sempre lembro da morte do meu irmão. Lembro de como aconteceu, da tristeza e da impotência dos meus pais, do choro da minha avó, da dor da minha cunhada, do não-entendimento das crianças envolvidas, da velocidade com que as pessoas queridas lotaram dois apartamentos (o meu e da minha mãe e o do meu pai, que já eram separados).

Também lembro do sentimento de torpor que vivi por 24 horas – longas 24 horas -, dos remédios que não tomei para aceitar o inaceitável, de como me comportei, das pessoas que estiveram ao meu lado, que me socorreram num momento de desespero.
Vivi – e vivo – vendo o sentimento de perda dos meus pais e sei que é uma dor que não passa. Não falamos sobre isso, mas é algo que sempre está ali. Como não sou mãe, entendo que não posso falar por eles.

Mas posso falar como filha, como irmã.

Nestes 21 anos – ou 20, pois sempre me perco na conta, assim como até hoje não sei certo o dia em que ele morreu (cérebro, seu lindo, que bloqueia determinadas coisas), vi vários irmãos morrerem. Sei que mais do que irmãos, eles são filhos, são netos, são amigos; mas como disse, sendo irmã me permito falar somente como tal.

Lembro que quando o Tiago morreu, em um acidente, eu só conseguia pensar na Marceli, a irmã pequena dele. Porque olhava pra ela e me via ali, tentando entender o que viria depois.

Quando o irmão da Carol morreu, em um assalto, eu estava longe. E ela era minha amiga. E quando eu falei com ela e soube por ela do que tinha acontecido, não sabia o que dizer. E foi exatamente isso que eu disse. Porque não havia o que dizer. E eu sabia disso. Porque quando aconteceu comigo, independente do que as pessoas dissessem, nada faria diferença. Ele não voltaria.

E agora, de novo, eu vejo uma irmã chorando porque o irmão se foi. E, como o irmão da Carol, de uma forma horrível, de uma forma que não deveria acontecer. Dizendo isso, não quero dizer que há uma forma certa de morrer. Mas certamente existem formas mais erradas.

E quando eu vejo isso, eu sinto. Muito. Pelas pessoas que ficam. Pelo que virá depois. Mas, ao mesmo tempo, sei que a dor passa. A indignação fica, com certeza. Pelos momentos não vividos, pela maldade que a morte representa.

Essa dor não é um assunto que eu goste de falar, na verdade é bem o contrário. É ruim lembrar. Mas é uma lembrança que sempre volta quando os irmãos choram. Porque eu já chorei.

 

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Autor: Poli Lopes

Jornalista diplomada, passei por agência de marketing digital, jornal, rádio, revista e assessoria de imprensa, sempre escrevendo. Doutoranda e Mestre em Processos e Manifestações Culturais, também sou professora no MBA em Marketing Digital no Iergs (Uniasselvi). Sou apaixonada pelo que faço e também pelo meu marido e pelo meu cachorro.

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