O Setembro Amarelo que cutuca e faz pensar

O Setembro Amarelo fica me cutucando. Todo dia aparece na minha timeline, na capa do jornal, no meu feed. E eu, infelizmente, não consigo encará-lo como deveria.
 11903753_1673153659566988_4484664845214424558_n
Meu irmão tirou a própria vida no final de agosto, o mês do desgosto, uma semana após completar 27 anos. Por um bom tempo eu e minha prima conjecturamos. Faltavam 15 dias pro aniversário do nosso pai. Ou 30 dias pros meus 15 anos. Depois de mim, menos de um mês pros 15 anos dela. Logo, já seria Natal. Ano Novo. Um ano da filha dele. Carnaval. Páscoa. O aniversário da nossa avó, depois o da nossa mãe. E assim se sucederiam os meses, os anos, sempre com algo a comemorar, um evento que pudesse unir a família. Se ele tivesse esperado uma data, poderia ter esperado a seguinte.

Mas ele não esperou. Ele foi lá e fez.

E eu demorei pra entender. Ou achar que entendo. Porque já se passaram 23 anos e eu ainda penso na polarização coragem X covardia. E quanto mais vejo as pessoas polarizando tudo (essa vida que é um eterno GreNal…), mais eu encuco com isso. É coragem (de tirar a própria vida)? É covardia (de não enfrentar a depressão)? Ou seria a solução pro que parece não ter uma?
A terapia que eu fiz depois da decisão dele me ajudou a me entender. E me ajudou a, de certa forma, enfrentar melhor os acontecimentos, os sentimentos, os fatos da vida. Mesmo que a gente não fale disso. Porque as lembranças da vida permanecem, as da morte a gente não fala. Porque dói. A saudade já dói e pensar que alguma coisa poderia ter sido diferente se a gente tivesse falado sobre (com ele) faz doer ainda mais.

Suicídio sempre foi tabu. Depressão, doença de louco (ou desocupado).

Eu sei que não é. Mas nem todos sabem – ou preferem não saber. Manter o véu do preconceito é mais fácil do que enxergar essa doença que nos deixa fracos, sem forças pra lutar. Que faz com que alguém queira apenas acabar com a dor que lhe consome.
Por isso, me sinto cutucada pelo Setembro Amarelo. Porque ele pede pra falar. Que quem precisar de ajuda fale. E que quem for procurado para ajudar, que fale também. E que efetivamente ajude, mesmo que seja apenas ouvindo e dando atenção.
Segundo as estatísticas, uma pessoa comete suicídio no mundo a cada 40 segundos. Enquanto eu escrevi, li e reli esse texto, foram pelo menos 20 pessoas. Que poderiam não entrar pra estatística SE alguém a ajudasse. Ou seja: não ria, não desdenhe. Ouça. Ajude.
Anúncios

Educar não é adestrar, por Leandro Karnal

leandro karnal no rodaviva

Esse texto do Leandro Karnal publicado no Estadão de hoje passou pela minha timeline e achei necessário trazê-lo pra cá, pois de certa forma desmistifica um pouco o tempo que vivemos e traz um pouco de alento a quem pensa como ele…


Educar não é adestrar

Sou professor há 34 anos. Muitos pais pedem este conselho: como educar em pleno século 21? A resposta é complexa.

Somos dominados pela cultura da performance. O conteúdo está em alta, especialmente o de imediata aplicação. O vestibular tornou-se um vórtex e o ingresso em centros de excelência virou meta familiar, pois todos ficam envolvidos emocionalmente no esforço dos jovens.

É fundamental que a criança e o adolescente dominem coisas como linguagem escrita/oral e habilidades matemáticas. Serão úteis por toda vida. Porém, há dois campos que fogem à aplicação imediata. O primeiro é a educação das artes plásticas.

Alfabetizamos para a leitura de textos e raramente educamos para a leitura de imagens.

Vivemos imersos num mundo visual e não nos adaptamos a isto. O desafio do olhar é intenso e o jovem quase nunca tem habilidade e repertório para julgar este mundo de fotos e desenhos que flui pela rede.

Somos, quase todos, analfabetos visuais.

Levar uma criança/adolescente a um museu é algo muito importante. Deve-se preparar a experiência mostrando algumas obras que serão vistas. Devemos dar informações lúdicas e práticas. Deixe seu filho perceber a cor ou a espacialidade. Ele deve ser livre para se expressar e não devemos julgar o parecer de imediato. Importante: fique um tempo reduzido no museu, proporcional à idade. Aumente este intervalo a cada novo passo da maturidade. Podemos evocar o tema do que foi visto em conversas familiares. Indique sites que aprofundem a experiência. Isso tudo faz parte de uma educação visual e artística. O olhar fica mais sensível e amplo. Use todas as oportunidades. Indique como o selfie que ele tanto faz apresenta uma composição espacial. Introduza, aos poucos, a gramática de cada escola artística. Aprendizado implica esforço.

Educar não é adestrar, mas ampliar e estimular o repertório para que cada ser faça parte da aventura humana.

A educação pela arte é poderosa e pode mudar, para sempre, a vida de alguém.

O outro ponto é a música. Todos os seres humanos deveriam ser expostos à linguagem musical desde cedo. Crianças amam o ritmo de tambores (para desespero de pais) e podem entrar logo no campo da melodia. Caixinhas de música seduzem bebês. Alfabetizar em música é algo muito bom. Em primeiro lugar, poucas coisas exigem áreas tão variadas do cérebro. Tocar requer habilidade motora das mãos, matemática do compasso, sensibilidade e abstração interpretativa. Descobrir esse universo é algo que ilumina as sinapses e estabelece a comunicação entre os dois lados do cérebro. Acreditem: a música torna as pessoas mais inteligentes! Rousseau, Nietzsche, Adorno e Barthes foram muito interessados em música. Parte de sua agudeza mental derivou disto.

Há uma outra vantagem na educação musical. Ao estudar piano, violão ou outro instrumento, despertamos um verdadeiro método. A criança começa com 15 minutos diários, depois meia hora e vai aumentando. É um sistema crescente de concentração. Surge uma arquitetura gradativa que estimula a paciência. Foco é um diferencial enorme nas relações profissionais e afetivas.

O livro O Grito de Guerra da Mãe Tigre (Amy Chua) narra a experiência de uma sino-americana com suas filhas. Uma foi levada ao piano e outra ao violino. Dentro dos princípios defendidos pela mãe, as meninas foram estimuladas a um alto grau de excelência quase obsessivo. Proponho algo diferente, mas Amy Chua tem a vantagem de ter uma estratégia e de se envolver nela.

A música é para criar alma, não para tocar, obrigatoriamente, no Carnegie Hall ou na Sala São Paulo. Preciso estudar música para ser um bom ouvinte. O jovem deve ser incentivado até o ponto em que ele possa se divertir com a música. Todos ganham com esse aprendizado.

Possibilitamos, com as artes, que o indivíduo viva sua sensibilidade, crie foco e amplie seu leque de interesses.

Pense bem: se você não quiser enfatizar isso porque seu filho não será músico ou pintor, deveria evitar que ele aprenda a ler, porque ele também não será escritor. Interrompa a Educação Física: ele não competirá nas próximas Olimpíadas. Educação é para formar o ser humano completo, não para tornar cada atividade um projeto de carreira. A carreira virá de forma natural, ela é efeito de uma causa anterior, a personalidade.

Livros, tabela periódica, fórmulas físicas, redação, processos históricos: tudo isso pode ser parte de um projeto. Desejei reforçar a arte e a música como linguagens específicas para um diferencial humano. Meu ex-professor, Pe. Milton Valente SJ, afirmava: non scholae, sed vitae discimus (não é para a escola, mas para a vida que aprendemos). Poucas coisas têm tanta vida no mundo como a criatividade artística e musical. Ouse, crie e acredite: seu filho será outro se tiver acesso a estes dois mundos.

Focar somente no que vira lucro é bom para o projeto de hamsters amestrados, não para pessoas integrais.

Não temos a menor ideia de qual carreira será brilhante em 2046, mas todas necessitarão de criatividade e inteligência. Aproveito e agradeço a todos os meus mestres que apostaram que haveria vida após o vestibular. Bom domingo para vocês!

Quando morre o irmão de alguém…

Estou aqui pra falar de sentimento.
Não quero falar de política, hipocrisia ou coisas assim.
Por favor, entendam.


 

209946_10150177594232801_1391097_o

Quando morre o irmão de alguém, eu sempre lembro da morte do meu irmão. Lembro de como aconteceu, da tristeza e da impotência dos meus pais, do choro da minha avó, da dor da minha cunhada, do não-entendimento das crianças envolvidas, da velocidade com que as pessoas queridas lotaram dois apartamentos (o meu e da minha mãe e o do meu pai, que já eram separados).

Também lembro do sentimento de torpor que vivi por 24 horas – longas 24 horas -, dos remédios que não tomei para aceitar o inaceitável, de como me comportei, das pessoas que estiveram ao meu lado, que me socorreram num momento de desespero.
Vivi – e vivo – vendo o sentimento de perda dos meus pais e sei que é uma dor que não passa. Não falamos sobre isso, mas é algo que sempre está ali. Como não sou mãe, entendo que não posso falar por eles.

Mas posso falar como filha, como irmã.

Nestes 21 anos – ou 20, pois sempre me perco na conta, assim como até hoje não sei certo o dia em que ele morreu (cérebro, seu lindo, que bloqueia determinadas coisas), vi vários irmãos morrerem. Sei que mais do que irmãos, eles são filhos, são netos, são amigos; mas como disse, sendo irmã me permito falar somente como tal.

Lembro que quando o Tiago morreu, em um acidente, eu só conseguia pensar na Marceli, a irmã pequena dele. Porque olhava pra ela e me via ali, tentando entender o que viria depois.

Quando o irmão da Carol morreu, em um assalto, eu estava longe. E ela era minha amiga. E quando eu falei com ela e soube por ela do que tinha acontecido, não sabia o que dizer. E foi exatamente isso que eu disse. Porque não havia o que dizer. E eu sabia disso. Porque quando aconteceu comigo, independente do que as pessoas dissessem, nada faria diferença. Ele não voltaria.

E agora, de novo, eu vejo uma irmã chorando porque o irmão se foi. E, como o irmão da Carol, de uma forma horrível, de uma forma que não deveria acontecer. Dizendo isso, não quero dizer que há uma forma certa de morrer. Mas certamente existem formas mais erradas.

E quando eu vejo isso, eu sinto. Muito. Pelas pessoas que ficam. Pelo que virá depois. Mas, ao mesmo tempo, sei que a dor passa. A indignação fica, com certeza. Pelos momentos não vividos, pela maldade que a morte representa.

Essa dor não é um assunto que eu goste de falar, na verdade é bem o contrário. É ruim lembrar. Mas é uma lembrança que sempre volta quando os irmãos choram. Porque eu já chorei.

 

E a vida sem internet?

sem internet

Li e reli este post, várias vezes. E pensei muito sobre o assunto. E deixo aqui algumas dessas reflexões… Pensei sobre a necessidade de saber de tudo. De estar em todas as conversas, ao mesmo tempo. De estar aqui com X e ao mesmo tempo falar com Y e Z sobre assuntos totalmente aleatórios, sem relação alguma com X.

Vai parecer conversa de velha, mas sinto saudade do tempo em que precisava ligar pras pessoas pra combinar um encontro, sentar numa mesa de bar e colocar os assuntos em dia. A possibilidade de comunicação que a internet móvel oferece facilita, e muito, a nossa vida (se eu ficar presa no trânsito, posso avisar quem me espera em outro ponto com alguns toques na tela, inclusive sem custo). Mas não é porque estou online que tenho a obrigação de responder ou de querer falar. Não é porque tenho determinado aplicativo no telefone que sou obrigada a responder, a qualquer hora ou em qualquer lugar ou situação.

Já pensei, é claro, em desativar a internet do telefone, em sair do Facebook, em – sei lá – sumir daqui. São pensamentos radicais, eu sei, especialmente porque eu entendo a importância do potencial das redes sociais em aproximar pessoas, em difundir ideias e pensamentos. É o meu trabalho, meu dia a dia. Também é aqui que vejo os filhos de um grande amigo crescer, que mato a saudade da amiga que mora longe, que tenho notícia dos parentes, que busco informações em grupos relacionados ao meu trabalho.

Mas é aqui que vejo muita bobagem, que perco tempo abrindo links que não vão acrescentar nada. O problema é deixar esse mundo online tomar conta da vida. De tudo.

E é disso que eu quero fugir! (se eu não aparecer por aqui, fique feliz: estou ali fora vendo o cachorro latir pros passarinhos, tomando chimarrão e namorando o marido, rindo com os colegas no pátio da firma ou brindando “cazamigas” em algum bar por ai. ou seja, estou vivendo.)

****

A inspiração pra esse texto veio do Vida Organizada, da querida Thais Godinho.

Este texto eu publiquei originalmente aqui no Facebook.

A arte de dividir

nos

Quando a gente ama e está com alguém, precisa aprender a dominar a arte de dividir. E não é somente dividir a coberta, o lanche e os pares de meia. É dividir o tempo, a atenção, o amor.

Cada vez mais as pessoas – incluindo eu! – encontram mais atividades. É um trabalho extra, um hobbie, as amizades que pedem sua atenção. E tem a casa, os cachorros, a família. Tudo exige tempo de nós, dos dois! E saber dosar isso acaba se tornando uma arte.

Sei que muitas vezes pareço distante, perdida em pensamentos, mas são nesses momentos que tento organizar tudo isso. Às vezes é fácil de entender, outras não. Mas esse “dividir” inclui a puxada de freio. Porque ele me conhece, ele sabe que se deixar eu abraço o mundo – o meu, o do trabalho e o de todo mundo – com as pernas.

Obrigado por me fazer parar, de vez em quando. Mas não sempre, certo?

Carpinejar, Cora e Zãk…

Encontrei alguém que consegue dizer, em belas palavras, muitas das coisas que eu penso, que eu sinto. E quando li esse post (Colher de sopa), quase chorei!

Quase, porque estava no trabalho. Chorar, porque lembrei do meu gordo, lá em casa, e das minhas conversas com o Jerri sobre quando o Zãk ficar velhinho.

Esse papo sempre surge quando vemos Marley & Eu. Porque sabemos que um dia nosso “barriga” ficará velhinho, sim! E isso dói, já agora!

Posso entender esse sentimento como “amor”?