Problematizar a fala do amigo no Facebook a partir da linguística: #quemnunca

Eu deveria estar preparando uma aula, mas li um post de um amigo e tive que parar pra refletir (ou seja, problematizar! hehehe) sobre o que ele disse:

“Mas agora o que eu quero é tentar nunca mais votar em pessoas que têm uma agenda particular, apenas isso.”

Minha primeira resposta, simplista, foi:

“Com essa demanda vai ser difícil achar em quem votar… Infelizmente, mas será!”

Eu penso isso porque não consigo acreditar em isenção. A gente pode dizer que faz “pelo povo, pelo bem do outro, pela justiça, pela lei”, mas sempre tem um EU ali escondido. Se eu quisesse teorizar, mas já teorizando, usaria Charaudeau pra dizer que, apesar de eu me colocar como enunciador (o ser de fala), eu tenho por trás (sem piadas, ok!) um locutor (que é o sujeito comunicante, o ser social, aquele que traz todo um repertório de vida, de estudo, que influencia no que eu falo). Da mesma forma, do outro lado, quem me ouve é um destinatário que tem, por trás, um receptor, um ser social interpretante que também carrega todo um repertório.

Charaudeau - ato de linguagem
Charaudeau explica que todo ato de linguagem tem dois circuitos de produção de saber: o da fala configurada (espaço interno que o “dizer” e os seres de fala) e o externo à fala configurada (espaço externo que reúne os seres agentes instituídos como imagem de sujeito comunicante e interpretante)

Assim, entendo que mesmo que o candidato lá diga que quer governar pelo nosso bem, sem interesses, ele tem sim um interesse pessoal, a agenda que interessa a ele, aos partidários, à ideologia que ele representa.

Eu tenho um candidato a vereador (prefeito ainda não consegui escolher entre as belezuras que concorrem aqui na cidade). Ele defende determinadas pautas nas quais eu acredito. Conheço ele desde criança e sei que ele é uma boa pessoa. Mas, independente disso tudo, sei que as escolhas das pautas dele fazem parte de uma agenda pessoal. Quando ele, vereador em exercício, se coloca em oposição ao governo atual, é porque está defendendo essa agenda. Se eu voto nele, concordo com a agenda pessoal dele, por mais que ele possa vir a dizer (nunca o vi fazendo isso) que não faz por si mas sim pelos eleitores.

A quem se interessar mais sobre o assunto, recomendo a leitura do texto Pathos e Discurso Político.

Agora, pra fechar: Glauco, discordei de ti mas a gente ainda pode tomar cerveja no fim de semana, né? Não esquece disso:

dilma e aecio sorrindo

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Todo dia um 7 X 1 OU Precisamos falar sobre o circo

Eu escrevi esse texto no Medium no dia 17 de abril de 2016, enquanto assistia na TV a votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff pela Câmara dos Deputados. Não quero entrar na questão impeachment X golpe, mas preciso trazer esse marco da nossa história pra cá, só pra lembrar do circo de horrores que foi aquele dia. Quer dia melhor do que hoje pra lembrar que na nossa vida todo dia é um 7 a 1?


freak

Olá! Precisamos, sim, falar sobre esse circo que estamos presenciando ao vivo, em tv aberta. Talvez ele não seja muito diferente do circo que é exibido sempre na TV Câmara, a qual infelizmente não tenho o hábito de assistir. Faço aqui um mea culpa.

Sentei louca pra escrever e não sei por onde começar, tamanha a minha indignação com as falas que estão aqui no meu ouvido. Mas posso começar pelo básico.

Os votos são pela “minha família”, “meus filhos e netos”, “meu pai e minha mãe”, “pelos maçons” e “pelos corretores de seguros”. Não deveriam estes votos ser pelos eleitores, pelos brasileiros, como um todo? Por TODOS NÓS?

Os votos são para Deus, em nome de Deus, por Deus, em nosso lindo Estado Laico.

Os votos deveriam ser por crimes do governo, as pedaladas fiscais. Errou, tem que pagar. Certo. Mas são essas as justificativas que estamos ouvindo? Alguém falou em pedaladas? Talvez um ou dois…

Tivemos, também, isso:

Quando um deputado diz isso, entendo que no dia a dia ele vota contra o governo e não a favor dos eleitores. Algo tipo “esse projeto é bom, ajudaria o povo, mas como é daqueles caras lá, então voto contra”. É isso? A maioria é pelo governo e não pelo povo? Ok, entendemos o recado!

E teve isso, também:

Os deputados lá, votando um assunto sério para o futuro e a história do País, e este deputado, todo feliz, parado atrás do votante exibindo celular com fotos de um bebê pra câmera, em rede nacional. (ele saiu pro Feliciano ficar no lugar dele, quase fiquei feliz)

Teve isso, também:

https://www.facebook.com/plugins/post.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Ffolhadesp%2Fposts%2F1331726043536062%3A0&width=500

Ele defendeu um torturador da Ditadura! Entendem o que é isso? O tamanho do crime que é isso?

E nem falei, ainda, do fato de a votação ser conduzida por Eduardo Cunha, trocentas vezes citado em investigações de corrupção. E nem falarei, porque…